segunda-feira, maio 22, 2017

O fim dos tempos?



Não desejo enveredar pelo comentário às mensagens de Apocalipse que abundam em redor do 3º segredo de Fátima, do calendário dos Maias, ou de outra coisa qualquer igualmente excitante (para os aficionados da matéria).

Também não me parece muito sensato. Desde que o 2000 veio e nada acabou, seguindo-se o 2012 que também passou (apesar dos Maias),  as teorias de "fim do mundo" perderam um pouco da credibilidade.

Acabar acabamos todos os dias. Hoje uns, amanhã os outros. Ficar cá para semente não vai acontecer a ninguém. Só se for como adubo.

E a questão da reencarnação parece mal encaminhada se levarmos em conta a matemática...Uma questão de contagem de corpos e de almas, de nascimentos e de mortes... A não ser que acreditemos na sua generalização a animais e plantas ( metempsicose).

As teorias da metempsicose, eram valorizadas no oriente budista (do Tibete) , de onde se estenderam ao Egipto e à Grécia. Cá mais para Ocidente terão sido os Cátaros os seus apóstolos mais conhecidos.  Devem lembrar-se que esses Albigenses também não acabaram muito bem, apesar da doutrina muito pura que defendiam e que a nós parece hoje sábia.

Eu não sei se gostaria de reencarnar (salvo seja) nalguma planta... Se fosse mesmo preciso podia ser num carvalho (pensei no sobreiro, mas anda com doenças). A oliveira dura mais tempo, mas batem-lhe todos os anos com um pau e ainda por cima andam todas a ser clonadas ...

E quem quer ser animal nos tempos que correm? Só se for um insecto , uma barata daquelas que resistem a tudo o que lhes deitam.

Desde que li que essas bichas desenvolvem-se alegremente no Atol de Bikini ( o dos testes nucleares) fiquei com uma inveja desgraçada.

Conheço é pouco a vida social (e a outra) das baratas. Tenho de me informar.

Mas enfim, vem este texto quase bíblico a propósito da 1ª viagem externa do Presidente Donald Trump , e das pessoas com quem se vai encontrar:

Islamitas fundamentalistas da Arábia Saudita, Judeus de Israel, Sua Santidade o Papa, em Roma.

Será que o homem Trump sabe alguma coisa que nós não sabemos ainda? E que anda a ver se há escapatória junto das religiões mais conceituadas do planeta? Do tipo, organizo um leilão e entrego a alma a quem oferecer mais garantias, depois de negociação?

Francamente que fiquei preocupado.  De todas as formas já decidi. Se o fim do mundo por aí vier encontra-me em casa, sentado no sofá, com o Barca Velha de 2008 num copo e um naco de queijo da serra na outra mão.

E espero que ao chegar não demore muito a fazer o serviço. Contrariamente a outras coisas que carecem de tempo,  sou apologista de despedidas rápidas, e sem dor.

sexta-feira, maio 12, 2017

Por onde andas Blogger??


faixa-gerador

Estranhando a minha ausência continuada deste fórum, alguns amigos questionaram o que se passava.

A situação é simples, comecei a colaborar  há largos meses (pro bono, evidentemente) num site cultural muito engraçado e que recomendo a todos, o que me vai tirando tempo para aqui passar quase todos os dias, como era costume.

Não posso dar muitos pormenores, porque a minha colaboração é sob pseudónimo. Mas aqui vai o nome do site para poderem ver  e apreciar, porque tem muito que ler e ainda mais para aprender.

Chama-se gerador.eu

E aqui têm o endereço que os manda logo para a parte das crónicas:

http://gerador.eu/topico/cronicas/

quarta-feira, abril 12, 2017

Tempos idos



Na Páscoa era meu costume partir para a aldeia na Serra da Estrela. Tínhamos essa combinação quase desde que casei: Páscoa na Serra, Natal no Estoril. E funcionava bem.

A muita  idade e as maleitas das senhoras cá de baixo complicaram esta aparentemente simples aritmética.  Sem licença para deixar as "santas" cá de baixo sozinhas ( e sendo que a hipótese de apoio fora de casa nem sempre é possível e não é bem vinda) temos de fazer o que podemos. Neste caso será aqui ficar no Estoril  a tomar conta do "assunto".

Para além da vontade de ver os amigos e familiares, a Páscoa na Estrela também era repositório de pequenos mimos muito bem vindos: a abertura do vinho novo, os queijos da serra no seu esplendor, o pão-de-ló quentinho a sair do forno. E, sempre, o cabrito ali criado no pasto para a mesa do Domingo de Páscoa.

Aproveitava-se a Quinta Feira para dar um salto ao Centro de Estudos Vitivinícolas de Nelas, para ver o que se poderia lá comprar, combinava~se um forrobodó com os amigos e parentes, lá mais para o final da tarde de Sábado... Esse tipo de pequenos prazeres.

O almoço de Páscoa era um banquete: Filetes de polvo , cabrito assado, "ervas" (esparregado de nabiças grosso), leite creme e arroz doce feitos com leite de ovelha e ovos caseiros, pão-de-ló e, a terminar, um queijo de entorna com mais de quilo e meio.

Normalmente sentávamos-nos  por volta da 13h e só nos levantávamos para receber os parentes com os doces e o queijo, lá para as 17h.

Os vinhos  branco e o tinto novos  eram apresentados com orgulho nesse dia pela primeira vez à mesa  - o que quer dizer que na adega já teriam sido bem provados... E para terminar em beleza as hostilidades abria-se uma garrafa de bagaceira velha, com mais de 20 anos em madeira de carvalho.

Jantar não havia. Quem queria comer qualquer coisa que trouxesse para a mesa presunto, queijo e algumas das febras do cabrito para fazer sandes.

Um dos casos estranhos desse dia era que todos juravam e trejuravam que à noite  "nada podiam comer!" ."Estavam cheios até cima". Mas depois de verem a toalha na mesa e a minha sogra a cortar presunto lá se iam "arrimando"...

Por norma  - nesses dias de video-gravadores -  era costume acabar o serão a ver um filme que eu trazia cá de baixo. Sessão que tinha de se repetir na segunda feira depois do almoço, porque na noite do Domingo de Páscoa estava a malta toda um bocado "acelerada" e  a ver a dobrar. Ou a triplicar...

Pode ser que ainda se venham a repetir essas boas práticas pascais lá na quinta, com todos os sobreviventes a erguerem o copo do bom vinho do Dão,  saudando a  memória dos que já partiram.

Mas por enquanto tem de ser assim. É a vida. E temos que ter paciência.

terça-feira, abril 04, 2017

Ir às compras é uma seca



Nunca gostei muito de perder tempo com as "compras".  Seja o que for, desde sapatos, calças ou casacos para mim,  até ao peixe para os almoços de fim de semana.

É bem certo que para reforçar esta atitude estão quase 18 anos a viver sozinho (ou pelo menos sem cara-metade).

Para as "mércolas" do dia-a-dia normalmente faço pesquisa daquilo que preciso, levo a lista das compras, e quanto mais depressa estiver a pagar e a sair da fila da caixa, melhor.  Entro no Hiper às 8.30h, e pelas 9.30h já estou ao volante do carro outra vez, com as compras da semana feitas.

E no que toca à roupa tenho as mesmas preocupações. Normalmente só compro sapatos da "Hush Puppy's", porque sei que me serve bem o "43" sem ter de experimentar. Quando apanho alguma promoção nas lojas da marca  levo logo 2 ou 3 pares e estou com o problema resolvido para o ano.

Casacos e calças são mais difíceis, atendendo à envergadura da alimária que se assina. Mas lá me vou arranjando, ou mandando fazer  por medida ou utilizando o pronto a vestir em locais especiais  onde os grandes tamanhos são bem vindos.

Acho penoso ter de me arrastar atrás de alguém que adora ver, mexer, bisbilhotar, comparar dezenas de preços e de qualidades, e só depois comprar. Era isto que as mulheres casadas (ou não) normalmente faziam, pelo que ainda pensei que a vida solitária  me tinha livrado destas sinecuras...

Nada mais errado.

As santas nem sempre saem comigo ao Sábado (haja Deus!) mas quando saem tenho de me encher de paciência...

Ao fim de hora e meia de compras começo a ficar chateado e a querer ir-me embora,  até porque se o almoço se atrasa tenho que ouvir das boas .  Mas nada disso impede a progressão majestática , lenta e inexorável das santas dentro do hipermercado.

E o mais engraçado é que levam mais do que  uma hora a dizer "podemos ir pagar"; "vamos para a caixa". Mas não vão. Há sempre mais um cantinho para bisbilhotar.

Agrava a situação o facto de que já têm dificuldade para ler e entender os preços. Desta forma , se as deixo sozinhas levamos mais meia hora a repor nos locais devidos o que compraram e já não querem (porque se enganaram). E não posso andar com elas ao meu lado, porque uma vai para Norte a outra para o Sul, com a desculpa de que "ela não tem nada que ver aquilo que eu compro".

Agora, o que será  a cereja no topo do bolo? Querem saber?  É quando alguma das santas encontra por acaso na mesma loja uma amiga do seu tempo. Nessas ocasiões bem posso dirigir-me à secção das revistas e ler o "l'Automobile" inteirinho enquanto espero pelo final da conversa.

Já para não dizer que muitas vezes têm de ir ao Lidl e depois ao Continente. Para "comprar coisas diferentes", segundo elas.

Uma destas manhãs de compras começa antes das 9.00h e acaba, já em casa, lá pelas 12.00h, com o frenesim de ir fazer o almoço, pôr a mesa e dar-lhes de comer  antes de começar a dar a "Sara" na CMTV.

A "Sara"? É a "Escrava Isaura" em dialecto de santa de 87 anos...

Uma seca, como diria o Eça. Pior que seca. O deserto do Sahara é que aquilo é.

quinta-feira, março 23, 2017

Esta história dava um livro



Não tenho tido, na minha actividade como editor, dificuldade em arranjar temas para os livros que, ano a ano, saem com a chancela da nossa casa.

Pelo contrário, como temos boa fama como editores, o problema é poder escolher de entre as dezenas de temas que anualmente nos são propostos. E uma das coisas que mais me custa é ter de dizer a algum autor, com boas ideias:
-"Gostei muito da sua proposta, mas infelizmente  temos o nosso plano editorial completo até 2020".

O que é verdade. Temos até 2020 os 4 a 5 títulos que lançamos por ano comprometidos, e ainda temos mais uns 12 em lista de espera.

Iniciando esta actividade em 1985, editámos até ao dia de hoje 287 livros .

 Com especial relevo surgem os temas sobre o mar. Um pouco por causa das comemorações dos 500 anos dos descobrimentos portugueses, que levaram à edição de muitas obras relacionadas, debaixo da orientação do grande mestre que foi o Prof. Luis de Albuquerque.

Mas a gastronomia lato sensum está igualmente bem representada.  São 11 títulos até ao final de 2016 desde o "Comer em Português", de José Quitério, com fotografia de Homem Cardoso, editado em 1997 (esgotado) .  E temos já a fazer outro livro sobre  "Chocolate em Portugal", de Fátima Moura, no seguimento da obra da mesma autora sobre "Café em Portugal".

Pensando bem, estes 11 livros representam  mais de 50 000 páginas, em português e em inglês, que espalham por esse mundo as nossas tradições nesta área. Não conheço outro editor que possibilite tão larga divulgação da lusa  gastronomia através de livros bilingues.

Não se pense que é um favor que fazemos. Do ponto de vista comercial resultam melhor estes livros sobre temas como o Vinho em Portugal (João Paulo Martins), Vinhas Velhas (Luis Antunes, com fotografias de Anabela Trindade) , ou a "Dieta Mediterrânica"  (Fortunato da Câmara).

Mas como não somos uma editora especializada, teremos de ir intervalando estes temas com outros de índole diversa. E que entendemos assumirem também eles interesse cultural para o nosso público.

Para 2017 estamos já em trabalho avançado de edição dos seguintes títulos: "Fátima, 100 Anos" (Paulo Mendes Pinto); "Industria Têxtil em Portugal" (António Pereira); "Cafés Históricos de Portugal" (Samuel Alemão); "Rio Tejo, Berço de Civilizações" (Carmona Rodrigues).

terça-feira, março 14, 2017

Na "bisga"


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Estive a ouvir calinadas um destes dias, enquanto esperava pelas 8 da manhã, altura em que abria a oficina onde ia deixar o carro da família. Para fazer tempo fui a um café frequentado pelo povo, onde me deliciei com as "bocarras" do pessoal trabalhador.

Não deixa de ser estranho como a escassos dois quilómetros da mundana Cascais existe de imediato a civilização suburbana que não só limita a a área onde se pavoneiam os chiques e betinhos como decididamente tem tendência para a engolir. Basta afastarmo-nos do mar e ir para o interior. Interior onde ainda haja fábricas! O que é cada vez mais raro neste país de serviços.

As expressões lusitanas mais antigas enriquecem-se com o calão dos trópicos, cada vez mais ouvido nesse enquadramento. "Na bisga" significa rapidamente. É hoje pouco utilizada, substituída pelas mais modernas "bolina", "esgalha", "na gáspia" ou "na mecha".

Nas filas dos Salesianos, à espera de entrar nas aulas, era costume algum aluno mais afoito lançar uma "bombarda" e partir "na bisga", antes que algum padre,  ofendido pela má-criação ,lhe desse uma "lapada".

"Cavalona" e "cavalo de pau" (mulher grande ou magra e pequena) acho que já todos ouvimos dizer.
Mas "cavalo" já significa outra coisa que se consome (heroína ou um charro).

"Inhaca" é alguém que cheira mal, "lateiro" será comilão e "manolo" é um  amigo, companheiro do coração.

Um "mijão" é um gajo com muita sorte. E "mitra" é o mesmo que "azeiteiro" no Norte do país (chuleco). E um piropo  poderá ser  algo como: "Oh jóia, vem aqui ao ourives".

E "Apanhar uma put*"? Nada que meta redes e mulheres! Significa embebedar-se bem.

Agora o que nunca tinha ainda ouvido,  e achei deliciosa,  foi a expressão:
 - "Olha lá oh estúpido! Tás a confundir o olho do c* com a feira de Borba!" .

Temos que nos ir educando. Mas a pouco e pouco, porque muita cultura causa indigestão.

quinta-feira, fevereiro 23, 2017

São Favas Contadas!


Em bom português esta frase "Favas Contadas" significa que se conta como certo o prognóstico que foi feito. Por exemplo:
- "O SLB ganhar o campeonato de futebol deste ano são favas contadas!" (pensamento positivo...)
- "A passagem do SLB aos quartos de final da Champions não são favas contadas..."  (e antes fossem...)

O termo dá o nome igualmente a alguns restaurantes. Pelo menos a dois que eu saiba. Um em Ponte de Lima e outro no Fonte Nova, em Lisboa. Nenhum é deslumbrante, mas ambos muito aceitáveis.

Mas agora o caso é mesmo falar um pouco da "fava" e dar a receita bem portuguesa das "Favas Guisadas com Entrecosto".

Sobre a "fava" dizem os entendidos:
A fava é uma leguminosa tendo, no geral, uma composição nutricional muito semelhante a outros alimentos deste grupo. Além do elevado teor em proteína de origem vegetal, a fava é rica em amido, um tipo de hidrato de carbono complexo, que proporciona ao organismo níveis de energia estáveis por um período de tempo considerável. É também rica em ferro, vitaminas do complexo B, magnésio, potássio, zinco e fósforo.

Nem vale a pena dizer que no período pré-ração era considerada uma das melhores alimentações que se podiam dar aos solípedes (burros, mulas e cavalos).

Talvez por isso, quando posso e há na ementa, gosto de ir comer estas favas ao Jockey do Campo Grande. Casa de bem comer já aqui amplamente referenciada e onde se devem continuar a alimentar alguns "solípedes"... Fora a gente boa que lá vai e onde incluo toda a presente companhia de leitores.

"Favas Guisadas" eram antigamente um prato de Primavera, e sem teimar muito, suponho que lisboeta ou de origem "saloia", aproveitando as favas tenrinhas das hortas em redor de Lisboa. Faço-o muitas vezes em casa, seguindo mais ou menos esta receita:

É preciso um tacho grande e de boa base, para que aguente o convívio com todos os ingredientes durante o processo de refogar e de cozer.
Corta-se o entrecosto, um chouriço de carne , um chouriço mouro e um bom toucinho magro , todos aos pedaços .
Fazemos uma puxadinha com bom azeite, cebola e alhos picados. Juntamos uma mão meia de sal grosso e salpicamos com pimenta preta moída.
Logo que comece a alourar, juntamos o toucinho  e o entrecosto deixando suar um pouco e mexendo de vez em quando.
Adiciona-se a seguir um meio copo de vinho branco, duas colheres de sopa de uma base de tomate e o chouriço de carne, e voltamos a deixar refogar um pouco.
Depois metemos no tacho  5 dl de água  e deixamos cozer até as carnes estarem a ficar tenras.
Quando o toucinho e o entrecosto estiverem quase cozidos, juntamos as favas, o chouriço mouro, um ramo de coentros grosseiramente cortados e mais um pouco de água.
Deixamos cozer, rectificamos de  sal e pimenta preta.
Depois das favas cozidas, retiramos as carnes e deixamos apurar.
Normalmente acompanhamos com salada de alface temperada e polvilhada com coentros picados.


Um tinto indicado para este prato tradicional deve ser novo, vigoroso e fresco ao palato. Ou então...Que seja bom e vigoroso, deixemos a idade para outras núpcias! 

O Quinta das Bágeiras Reserva de 2011 (por cerca de 12 euros quando saiu) está ainda um portento!

sexta-feira, fevereiro 10, 2017

Os Dentes


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A minha "santa" mais sénior perdeu os dentes. Ainda se suspeitou que os tinha engolido, mas sendo uma prótese do maxilar inferior completa , penso eu (e os médicos) , que não haveria garganta para acomodar tal coisa.

Vistorias,  inspecções e auditorias foram feitas pelas duas casas. Camas foram levantadas e feitas de novo, móveis afastados, lixos vasculhados. Nada de dentes avulso...

Exigiu uma radiografia e uma "retrografia" ao estômago (queria dizer uma "eco"). Como não a levei ao hospital a fazer aquilo agora não me fala. Ainda bem, que descanso as orelhas.

Sem prova do crime torna-se difícil provar o dito cujo. Aos dentes da "santa" terá sucedido o mesmo que ao corpo do Jimmy Hoffa, o mafioso desaparecido em 1975.

Ninguém mais lhe pôs a vista em cima. Ou está nas Ilhas Virgens de barriga para o ar, ou estará nos alicerces de cimento de algum arranha-céus de Chicago. O Hoffa! Porque a prótese da "santa" não é credível que descanse numa dessas paragens.

A pior consequência desta situação tem a ver com a dieta da criatura. Sem dentes de baixo mastiga mal. Torradas sem côdea, bananas esmagadas, purés de batata e souflés... É o que come.

Mas vendo que os outros mortais manducam da comida normal, não se cala com os impropérios. Critica que só faço isto ou aquilo agora, que ela não pode provar! E que a prótese já devia estar feita. E porque é que não há dentes já prontos a usar?!

Uma prótese naquelas idades é complicada de fazer. Já quase não existe gengiva, apenas uma pelita cobre o maxilar... O protésico bem lhe disse que "se calhar não valia a pena". Mas ia levando com o tabuleiro dos instrumentos pela cabeça abaixo.
-"Ora essa! Então hei-de andar na rua sem dentes? "

Aqui o problema será mais a vaidade do que a vontade de comer. Acho eu. Mas não digo em voz alta senão ainda sou eu a levar com o tabuleiro do chá e das torradas na testa...

Como uma desgraça nunca vem só também a mim me diagnosticaram um caso grave de sensibilidade dentária, associado a uma raiz mal extraída ou à suspeita de existência de uma cárie "daquelas misteriosas, que nem o Raio X detecta". Ou seja, não sabem porque é que dói.

Estamos em processo de investigação.  Eu, e a minha dentadura. Que é só minha, natural. Tenho 62 anos e aqui cheguei sem uma única cárie, nem um dente chumbado .

Claro que deste segundo mistério nada digo em casa à "santa". Porque a resposta seria só uma :
- "Deus não dorme! É bem feito!"

Olhem que pôrra compadres!




segunda-feira, fevereiro 06, 2017

Nomenclaturas

As antigas classificações dos vinhos de mesa costumavam ser esclarecedoras. Tínhamos as Regiões Demarcadas. E dentro delas havia o Branco e o Tinto. E depois o Verde. Este podia ser branco ou tinto também.

O que melhor classificava o vinho do ponto de vista do consumidor era o produtor. Produtor de confiança era regra de ouro na compra. Grandes marcas se fizeram desta maneira ( e assim morreram algumas também). A atual hegemónica Sogrape  é um bom exemplo do que herdou à conta da fama da clássica Ferreirinha.

Depois começámos a ler nas garrafas as palavras Reserva , ou Garrafeira. A Sociedade de Vinhos Borges tinha até nos topos de gama dos anos 70 o adjectivo "Frasqueira".

E a seguir foi uma desbunda completa: Aos rótulos anteriores acrescentaram-se: Colheita Seleccionada, Escolha Pessoal, Reserva dos Sócios, Selecção Especial, Superior. E muito recentemente os vinhos com designação de "Premium" também abundam...

Isto é só MKT ou também existe algum "substrato" que o cliente deve ter em atenção?

A lei (Portaria 239\2012) obrigava a que no rótulo se associasse a palavra "Garrafeira" a um vinho tinto com envelhecimento mínimo de 30 meses, dos quais 12 podem ser em garrafa. Será "Velha Reserva" se esse período for no mínimo de 3 anos.

As designações Colheita Seleccionada, Escolha, Reserva,  Reserva Especial e Grande Reserva, previstas na lei,  estão adstritas a vinhos de mesa com características organolépticas destacadas e  que exibem teor de volume alcoométrico superior ( em 1% , noutros casos em 0,5%) ao limite mínimo fixado para o ano em causa

Ajudei? Se calhar não... Mas dou aqui dois exemplos alentejanos.

A Adega Cooperativa de Borba (uma grande casa, em todos os sentidos) comercializa o Grande Reserva Ouro de 2011 (14 graus)  a 25 euros ;  o Reserva de 2011, clássico rótulo de cortiça de 13,5 graus,  a 9,90 euros;   e o Premium de 2011, 14,5 graus também ,  a cerca de 6 euros.

Já bebi de todos. E qual gostei mais? Do mais caro. Teve 18,5 \20 na classificação da Revista de Vinhos. Mas atenção que o Premium mereceu , na mesma revista,  16,5\20! E reparem na diferença de preços... Comparando em termos absolutos, salte o Grande Reserva para quem pode. Mas ...em termos relativos? Venha de lá o Premium!

A Amareleza Vinhos (Companhia de Vinhos da Amareleja)  tem uma marca chamada "Courelas de Pias" que faz Vinho do ano,  Reserva e Premium. Neste caso a ordem de preços é essa mesmo.

Na feira de Vinhos do Continente foi possível testemunhar o seguinte:  O Premium de 2015 tem 14 graus, custa mais caro, 2,99 euros (mas estava marcado a 9,99 euros!!) ) e é muito bom para o preço,  um vinho gastronómico que baste. O Reserva de 2013 custa cerca de 2,90 euros (marcado a 6,99 euros fora de feira). Tem 13,5 graus e é um honesto, honestíssimo produto. E o vinho do ano (com um belo melro no rótulo) tem 12,5 graus,  custa ainda menos do que o Reserva , cerca de 2,50 euros, e bebe-se muito bem, sem exageros de "bondade".

Qual gostei mais? Do mais "caro". Que também é o de mais elevado grau álcool.  Sempre de comprar, até porque a diferença de preços para o Reserva foi na prática de 50 cêntimos!

Mas se a diferença de preços fosse de 3 euros em garrafa , dos 7 para os 10?   Já pensaria...

E qual o lugar do vinho do ano nesta escolha?  Durante a feira de vinhos, mais vale não o terem à venda.. A qualidade não justifica a escolha , pelo preço comparativo que encontramos entre estas 3 garrafas. E fora da feira? Assim sim. Estamos a falar de 2,5 euros a comparar com 7 e 10 euros.

Conclusão: Na dúvida e se puderem, vão pelo mais caro. Que pôrra de conselho Compadres...

segunda-feira, janeiro 30, 2017

Bagos de Arroz

Num destes dias foi possível investigar a nova casa do Chef Henrique Mouro, na Rua António Maria Cardoso, quase em frente à entrada do Centro Nacional de Cultura e ao Teatro de S. Luis, no Chiado.

Henrique Mouro começou no Pestana Palace, aprendendo o ofício com esse grande mestre que é Aimé Barroyer. Passou depois pelo Assinatura, pelo Tavares e pela Bica do Sapato.

Após uma pausa reflexiva dedicou-se a um conceito interessante nesta sua nova casa do Chiado: tudo leva arroz, desde as entradas ao prato principal e a algumas sobremesas. Daí o nome de "Bagos". Mas não se assustem! O arroz é extremamente discreto e nunca contribui para desviar a atenção do mais importante.

A casa é pequena (35 lugares sentados), mas muito bem decorada. Utensílios a preceito. Bons copos e o mais que se usa nestas azafamas. O andar de cima servirá mais para esperar pela mesa e ir tomando uns  aperitivos, enquanto que é  no andar de baixo que se passa a acção . Com a cozinha à mostra, como sempre gosto de ver.

Neste tipo de preparações culinárias   - que se convencionou chamar "de influência francesa", ou ainda "cozinha com assinatura"  - já sabemos que a decoração e a apresentação de cada prato contam muito, quase tanto como o paladar. De tal forma que alguns cultores do género confundem a Nuvem por Juno e trocam a prioridade que é devida aos sentidos neste enquadramento : primeiro o gosto e o olfacto, depois a vista.

Não é o caso de Henrique Mouro. A sua comida é muito bem apresentada, mas o que ressalta do quadro final é a qualidade do produto e a combinação de sabores aprimorada. Como deve ser.
As vanguardas culinárias das "espumas" ou de "vulcões em erupção à mesa" não se encontram ali.

Existe um Menu Executivo que começa a 12 euros (!) aos almoços. Mas podemos provar um menu mais completo por cerca de 15 euros, vinhos à parte, com entrada, prato principal e sobremesa. Ou podemos colocar-nos na mão do chef, se estivermos dispostos a gastar mais.

Os pratos principais , em média, valem 20 euros e são de dimensão adequada. Não se trata de "amostras".

Nesse dia pedimos inspiração ao chef, e preferimos ir pelas suas recomendações. Comeu-se (melhor dito, provou-se, porque eram várias propostas):  perdiz de escabeche (sem perder a matriz foi admirável de contenção no vinagre), um glutinoso de bacalhau (perfeito), arroz de cogumelos selvagens com lebre (muito bom), choco frito com arroz de  ostras (soberbo o arroz, menos bem o choco, que se queria mais "estrelicado"). E à sobremesa, arroz doce escondido num praliné muito bem feito.

Vinhos foram vários:  começou-se com um flute de espumante bairradino, depois o Bacalhoa Branco de 2015 (que não faz esquecer o de 2014), seguiu-se  o enorme Dão de Encruzado Quinta das Marias Reserva de 2011 e em tintos, o Douro Vallado Vinhas Centenárias, 2014 (claro que é bom,  mas não encantou).

Levou a palma o Dão branco: gordo e guloso, cor magnífica denotando o envelhecimento nobre, bouquet que nunca mais acaba. Haverá imbecis que o vão recusar por "estar passado". Que sejam muitos e que vivam muitos anos, é o meu desejo, para ver se sobram para mim mais algumas dessas garrafitas.

Com tudo incluído (incluindo uma  DOC Lourinhã XO Quinta do ROL) ficou a despesa por cerca de 80 euros por cabeça.  A culpa foi dos  líquidos!

Fora a água, coitada,  que nada teve a ver com o assunto...

Uma bela casa, um grande chef (quase o Nuvem Vermelha!). Recomendado para todos. Mesmo para os que normalmente se refugiam na cozinha tradicional portuguesa, como é o meu caso. Porque não deve o Rei comer só Galinha, nem só Rainha (salvo seja).

segunda-feira, janeiro 23, 2017

Sobrecarga sensorial

Estava prometida uma prova vertical de alguns vinhos do Reno da casta Riesling. O nosso amigo alemão trouxe preciosidades na mala e nada como um encontro à sombra do bom marisco português, no Beira Mar, para testar aquelas garrafas.

Convém dizer que a doçura deste tipo de vinhos (do menos doce para o mais doce : Kabinett, Spätlese,  Auslese) não se deve à existência da podridão nobre (Botrytis) como é habitual nos nossos "colheitas tardias", mas apenas à qualidade da uva, ao terroir e à arte do vinicultor.  Chegados ao Eiswein, o último da lista em doçura,  lá teremos a amiga Botrytis.

Naquela tarde beberam-se Riesling de 1989 até 2014, com preços a começar nos 60 euros por garrafa e a acabar nos mais de 1200 euros.  De produtores conceituadíssimos, com relevo para o Sr. Döhnoff, de Oberhausen (Nahe)  o único produtor alemão a ter conseguido 100 pontos por 5 vezes, com diferentes vinhos seus, na "bíblia" do Sr. Robert Parker.

Para complementar beberam-se ainda dois vinhos do amigo Bernd Philippi. Um Campo Ardosa de 2004 - e que foi o único tinto em prova. E o famoso "A" Riesling. Um vinho seco admirável que se provou em garrafa de experiência e que não se sabe ainda quando vai ser vendido ou quanto custará, mas a estimativa de preço é superior aos 2500 euros.

Faço notar que o grau álcool destes grandes vinhos alemães é muito baixo. Embora na garrafa estejam referências de 10 graus, alguns deles terão até menores graduações. Por norma quanto mais doce menos grau, com os grandes vinhos secos a atingirem a "enormidade" de 13 graus.

A sobrecarga sensorial foi tremenda. Passámos dos vinhos mais "novos" e "baratos" para os mais complexos ( e caros), sendo que os cheiros e sabores a maçãs maduras e  citrinos foram prevalecentes nos vinhos mais novos e simples,   deixando-se os frutos secos e até  o doce-amargo da toranja para os mais complexos. Todos muito bons!


terça-feira, janeiro 17, 2017

Nos subúrbios uma boa nova

Tive de ir em trabalho à Ramada.  Uma das antigas sete freguesias do Concelho de Odivelas,  por onde andou D. Dinis a brincar no Convento - e tanto gostou que lá ficou até hoje.

Chegado à hora de almoçar comecei a procurar poiso adequado. Sem vislumbre de dica iniciática dos peritos em gastronomia encartados acabei por apear à beira da estrada no:

Churrasqueira D. Pedro
R. Álvaro de Campos 40, 2620-271 Ramada
21 829 1482

Belo restaurante com grelha à vista, pratos do dia muito bem apresentados e uma interessante carta de vinhos, pois dobra a  vocação como garrafeira. Simples, mas não atascado no sentido boçal do termo.

Tem Bacalhau do antigo, isto é, demolhado em casa,  e que por isso mesmo pode ser servido ao cliente em posta do rabo (com vossa licença) ou da cabeça.  Só por esse motivo já merecia visita.

Mas depois também tem um serviço conhecedor e amável, qualidade de carnes grelhadas garantida, preços maneirinhos e a tal lista de vinhos cuidada em todos os aspectos.

Com uma garrafa de Tinto Carlos Reynolds (da família do Mouchão) de 2013, bacalhau com grão e todos os acompanhamentos, prato de salpicão alentejano e queijo de igual proveniência, e ainda 2 cafés e Jameson Cask Reserve para um, pagaram duas pessoas 32 euros.

Tem cozido à quarta feira e ao domingo. E irei experimentar.  Pois vale bem a pena a deslocação, como diria o inspector do "Miquelino". 





segunda-feira, janeiro 09, 2017

O dia de todos os funerais e mais um



Morrem por dia em Portugal quase 300 pessoas. São os dados oficiais. Mas é claro que poucos destes funerais têm tanto impacto na opinião pública do que aqueles a que assistiremos hoje: os de  Mário Soares, Daniel Serrão, Guilherme Pinto. E, para mim,  o do Carlos Bernardo.

Estive perto de Mário Soares várias vezes, em momentos institucionais que tinham a ver com a minha função. Recordo dele tiradas impagáveis, mandando afastar ministros quando manuseava o carimbo, dizendo que "...disto percebo eu Sr. Ministro!". E outras "estórias" que um dia (depois da reforma) poderei contar com mais à vontade. À família  - especialmente a João Soares, que esteve connosco, também ele  carimbando - os meus sentimentos sinceros.

Do Professor Daniel Serrão a minha memória é mais difusa, indo buscar apenas um momento de contracena com as emissões de selos, mas como espectador, segundo me recordo na Câmara Municipal do Porto. Todavia com o filho Manuel Serrão tenho-me encontrado diversas vezes, em sessões em redor do património gastronómico nacional e a ele envio um sentido abraço de condolências.

Guilherme Pinto foi um dos atores presenciais,  a 31 de Outubro do ano passado,  na sessão da Fábrica Ramirez onde lançámos a 1ª emissão de selos do mundo em latas de conserva. Carimbou os sobrescritos de 1º dia e proferiu algumas palavras, já bastante debilitado.  Aproximei-me dele porque o vi sentado (era o único em cadeira) e logo me disse sem problemas: "estou sentado porque tenho um cancro. Mas vou dar-lhe a volta!". À Câmara Municipal de Matosinhos, a todos os parentes e amigos, vai igualmente daqui um abraço de pêsames.

E depois o Carlos Bernardo. O Carlos trabalhou na Filatelia dezenas de anos. Entrámos quase ao mesmo tempo para os CTT, tendo feito o tirocínio naquela escola de correios que foi a Casal Ribeiro. Almoçávamos praticamente todos os dias juntos.

A equipa da altura tinha pouca gente, mas de muita qualidade: O Leiria Viegas ao leme, o Duran nos desenhos, a Graciete no ramo internacional, a Manuela e a Julieta na "fábrica", a Sacramento Costa no Planeamento e depois o Carlos Bernardo ( e eu) na área Comercial.

O Carlos era um homem bom. Nunca conheci alguém que não gostasse dele. Tinha uma forma jovial de encarar o mundo e a vida de trabalho. Era um dos melhores colegas nos momentos bons e maus.

Nestes mais de 30 anos de companheirismo , lado a lado na mesma sala e depois em gabinetes contíguos, recordo histórias muito engraçadas passadas com ele.

Uma vez foi a Israel fazer uma exposição. Convém dizer que o aspecto físico do Carlos era quase árabe: baixo, muito moreno, de cabelo preto encaracolado.

Desta forma antes de o deixarem entrar em Tel-Aviv meteram-no numa sala e mandaram-no despir todo. O Carlos assim fez, mas deixara as peúgas calçadas.  "Tire sff as meias!".  E ele lá tirou. E veio-nos dizer para Lisboa: " Mas onde raio caberia uma bomba debaixo dos peúgos? Imaginem se eu usasse meias até ao joelho...ainda lá estava!"

De outra vez partimos de Renault 4 (mudanças de "bengala") para uma reunião no Algarve, penso que era no Carvoeiro. Estávamos no Verão. As mais de 4 horas de viagem  - a viatura fazia 100Km \hora em descidas - fizeram-nos uma sede do caneco. Chegados ao Hotel rumámos ao Bar e enfiámos de seguida quatro gins tónicos cada um. Estávamos à vontade, porque a nossa intervenção era lá mais para o final da tarde e tínhamos umas horas para recuperar.

 Mas depois da desbunda soubemos que tinha havido mudanças e éramos os primeiros  a falar. Dentro de 20 minutos começava a sessão.

O que fizémos? Para saber qual dos dois tinha a honra de se dirigir à assembleia primeiro, fomos beber mais um Gordon's  e deitámos uma moeda ao ar. Perdi eu...

No fim  das intervenções, antes do jantar, o Leira Viegas veio ter comigo e disse-me "Você estava muito animado! Pôs a malta toda a rir". Pois ...

Era assim o meu Amigo. Recordo-o já com saudade, nos grandes momentos de convívio que tivemos juntos. Algarvio de gema, sempre que podia rumava a sul. E eu com ele várias vezes. Conhecíamos de cor a Estrada Nacional 5, sobretudo no troço entre Portimão e Vilamoura... Chegámos a fazer na mesma  noite esse troço umas 4 vezes (duas para cada lado). Grandes tempos!

Boa Viagem Amigo! E falaremos.

quinta-feira, janeiro 05, 2017

2017



Fiquei com problemas de acesso internáutico no final do ano passado, a que se juntou uma arrelia  (e avaria) com o telemóvel que obrigou à respectiva substituição.

Por isso me penitencio de tão longa ausência.

O ano começou bem, com o Engº Guterres na ONU, com o Governo equilibrado na sua geringonça e com o SLB bem estribado no futebol pátrio (esta foi para chatear os amigos verdes e azuis).

O vosso Blogger enfartou de cozinheiro de serviço à quadra e agora está em greve de zelo. Comam sopas do Tio Belmiro, frangos do amigo galego, sandes de presunto e tapas de salmão. Ovos mexidos se me comovo...E vá lá que ainda ponho a mesa, levanto os pratos e lavo a louça...

A mais velha das minhas santas já se queixou que a estão a "matar à fome".  Falta-lhe comida de garfo e faca. Pois,  a mim também me falta muita coisa. E não é só o que vocês estão a pensar!

Falta-me ganhar o euromilhões (prometido há anos), falta-me descanso numa praia onde o trabalho mais duro seja mergulhar na água a 20º, falta-me a continuação do Game of Thrones. E por aí fora, não desejando entrar nas "faltas" de cariz mais mundano-carnal.

O que desejo para 2017 é simples:

- Mais saúde, mais emprego, mais dinheiro para trocos, mais tempo para amar.

- Paz no mundo e água potável para todos (humanos, animais e plantas), Vinho do melhor (para quem sabe apreciar). Que nunca nos falte a alegria nem a capacidade de criticar.

- Muitos anos de vida aos Media Streamers!  Graças à NetFlix (e outros)  deixámos definitivamente para trás a TV paleolítica onde ainda "florescem" coisas mal cheirosas como a Reality TV...

- Desejo livros bons e em quantidade. Desejo museus modernos e cheios de malta nova.

E sobretudo desejo bom senso para cuidar do ambiente, boas práticas sustentáveis no comércio e na indústria, mais e melhor protecção das árvores, da floresta, dos rios e dos mares.  E da vinha... da vinhazinha pôrra! Cuidado com as barragens!

Em que planeta? Perguntarão vocês...

Neste, está claro. Por enquanto não temos outro...

Embora às vezes pareça...

quarta-feira, dezembro 14, 2016

Os doces da quadra ( e fora dela)





Não sou muito dado a sobremesas. Tenho o paladar mais virado para os salgados do que para os doces. E assim devo ter sido desde que me lembro. Uma muito honrosa excepção é a do chocolate preto,  que muito aprecio e "ataco" sempre que me sinto mais em baixo, em substituição do Xanax. As outras duas refiro já de seguida.

Voltando ao assunto, de uma forma geral viro a cara aos "doces". Recordo ainda,  com torcedelas de nariz em retrospectiva, as noites que a minha mulher passava com a mãe dela ,de volta do fogão e dos fritos de natal. Filhoses, coscorões, sonhos de abóbora (os de aguardente ainda provava quando vinham quentes) e fatias douradas tinham obrigatoriamente de estar na mesa da consoada.

O sabor e cheiro a canela e a fritos invadia a casa. Tínhamos que abrir a janela, o que para quem estava na Beira Alta em pleno Dezembro não era muito confortável.

Todavia sempre houve um bolo que não desdenhava  na altura nem desdenho agora. O Pão-de-Ló, que à moda serrana era servido em fatia generosa saída do forno com uma colher de sopa de queijo da serra de entorna ao lado. Quem gostava da maridagem barrava, quem preferisse a separação, como era o meu caso, ia tasquinhando num e noutro.

Em casa de meus sogros  – na quinta entre Seia e Gouveia -  a receita, que não pode ser mais simples, era assim:

6 Ovos inteiros (caseiros é que são bons)  mais dez gemas. 250g de açúcar mais 100g de farinha (passada por uma peneira). Manteiga e uma mão de farinha a mais para untar a forma.
Batem-se durante bastante tempo os ovos com o açúcar (pelo menos 15 minutos). Junta-se a farinha e continua-se a bater mais uns 10 minutos.
Entretanto unta-se uma forma das que não têm chaminé e por cima coloca-se papel vegetal, também ele untado. Com o forno pré-aquecido a 200º mete-se a forma com o massa dentro por 15 minutos.
Mas atenção! Façam o teste do palito quando passarem 10 minutinhos…
Quem gosta dele bem húmido no meio retira mais cedo, Quem gosta mais consistente deixa ficar mais um bocadinho. 
Quando estiver cozido ao vosso gosto retirem, deixem esfriar um pouco e ala para a mesa a fazer companhia ao queijo da serra amanteigado.

A minha última excepção doceira é mais recente. Aproveitando os excelentes livros de Fortunato da Câmara sobre o Abade de Priscos, dei comigo a provar esse pudim tradicional onde o encontro. 

É claro que quem lê a descrição e os ingredientes, e sabe de cor a  receitazinha original, dá consigo à procura da tal forma de cobre utilizada pelo bom abade, a dar importância aos pormenores como a gordura a utilizar ser de presunto e não de toucinho da barriga, e a questionar os donos dos restaurantes. Na grande maioria dos casos nada ou pouco sabem dos pormenores da execução. Porque este (e outros) doces são comprados fora.

E essa ainda é a atitude mais honesta de quem me responde. Porque já tenho ouvido de tudo. Desde "é segredo que não podemos revelar",  até confundirem o Pudim do Abade com o Toucinho do Céu, e terminando por apresentarem um Pudim Flan com o título em carta de Abade de Priscos porque "levava muitos ovos"...

Diz quem sabe que o Zé Avillez fazia um excepcional Pudim do Abade no seu Bistrot. Ainda não o provei. Dos que provei faço referência ao do Arcoense, ao da Adega de Tenões (ambos em Braga) e , em Lisboa ao do Jockey e ao do Galito.

Não possuo suficiente conhecimento do assunto para jurar e trejurar pelo respeito da receita original, mas uma coisa é certa, estes que cito são muito agradáveis ao meu paladar e não abusam do açúcar, o que é fundamental para o meu gosto mais avesso a grandes doçuras.

terça-feira, dezembro 06, 2016

Tráfego de esqueletos e outras bizarrices


gato Sphynx

Li hoje no circunspecto jornal "Público" que um investigador português a trabalhar no Canadá teria chegado a acordo com a Câmara Municipal de Lisboa para lhe serem enviadas umas 100 ou 200 (!)  ossadas humanas que a CML  considera abandonadas nos cemitérios municipais, para fins de estudo científico.

Parece que a grande variabilidade morfológica e anatómica são variáveis altamente desejadas para que os alunos de antropologia e de ciências forenses consigam identificar correctamente os ossos.

Porque é que se lembraram de nós? É que no Canadá há esqueletos (pudera!) mas estão identificados, pelo que não se poderão utilizar para investigação a não ser que expressamente doados para o efeito em vida.

Vários cientistas portugueses vieram entretanto a público com uma petição, contestando este desbaratar do "património esquelético nacional" sendo que o neologismo é de minha autoria. Exportar ossadas seria coisa do tempo do colonialismo!

Por mim juntaria uns esqueletos de chimpanzé e orangotango no meio da remessa, para gozar com os importadores. Isso é que era engraçado!

Mal comparado lembra-me a história daquela "socialite" que comprou a preço exorbitante um gato raro da raça Sphynx (careca) para depois verificar - quando lhe passou a ressaca da "coca" -  que se tratava de um cão rafeiro a quem tinham feito uma "depilação total"...

Estamos quase no Natal. Temos que nos rir. Ou não...

segunda-feira, novembro 28, 2016

Um "Ver se te avias"



Diz-nos o circunspecto Instituto Camões que a frase do título significa :"Termos de acelerar o nosso desempenho para cumprir uma determinada tarefa o mais rapidamente possível." 

Quem sou eu para discordar? Mas no vernáculo também se utiliza a frase em causa como sinónimo de "desbunda", "fartar vilanagem", expressões que pretendem designar uma pressa excessiva ou um ultrapassar dos limites em circunstâncias do dia-a-dia, e que são muito utilizadas no contexto político.

Fui almoçar à Cervejaria Ramiro, instituição quase "sagrada" da nossa restauração situada na Av. Almirante Reis,  um dia destes em que tinha obrigações de formador ali perto, na Rua da Palma.

A expressão "Ver se te avias" veio à baila pela forma de atender a malta que espera mesa à porta do dito poiso. 

Bem sei que a filosofia da famosa casa  é exactamente esta: serviço rápido, boa qualidade da matéria prima, "desimpeçam a mesa que há mais à espera lá fora". E foi coisa que não me incomodava quando era mais novo. Virava duas ou três bejecas, descascava o pratinho (agora caçoila) das gambas do Algarve, pedia um prego no pão , café e a conta. Em 20 minutos estava livre da incumbência.

Mas hoje, no virar dos 60? Aprecio outros mimos. Pano no guardanapo, simpatia, acolhimento e tempo. Sobretudo tempo para apreciar. Não gosto de ter que me levantar para dar acesso à mesa encostada à parede. E levantar-me outra vez para dar passagem à saída. 

Tenho pejo em ouvir as conversas todas por falta de espaço e intimidade, olho com reprovação os restos da mariscada no chão ou em cima das mesas. Vejo com antipatia  o casaco a arrastar-se pelo chão pela falta de altura das cadeiras. E se almoço com ele vestido passo a vida a cotovelar o vizinho do lado.

Ouço com algum horror que o bife do lombo não tem acompanhamentos  (vem a carne e pronto). Tremo de enjoo ao ver as torradas de papo seco com manteiga a chegarem às mesas em corrida, substituindo o "couvert".

A pressa com que tudo é feito traz algumas consequências. No meu caso as gambas vinham mal cozidas. A carne é boa, mas quem aguenta comer um bife inteiro sem batatas, arroz, salada, ovo a cavalo, qualquer coisa? "Peça pão" foi a resposta...

Amigos que idolatram o local e a quem me queixei (baixinho), disseram: 
-"Quem te manda lá ir almoçar? Aquilo é para petiscos!"

Uma coisa é certa: está sempre a abarrotar, cheinho de estrangeiros que afanosamente usam o dicionário no IPad para traduzir "percebes" ou "santola". Os preços são baixos, a relação qualidade do marisco (e da carne) face ao preço é excelente. Por 25 euros comem bife do lombo, gambas frescas, 3 imperiais e café.

 E como diziam os pais do MKT: "produto bom é aquele que se vende!" Ou seja, devo dar corda aos sapatos para outro lado e desimpedir o caminho para quem aprecia aquela filosofia. 

Recordo com saudade as horas passadas à volta do marisco excelente do velho Lusíadas ou da Marisqueira (ambos em Matosinhos). Que diferença. Com o pormenor (ou "pormaior") que em vez de 25 euros pagaria 125... Não há milagres.

É a idade. Juro que deve ser da idade. Estou a ficar aburguesado com certeza. Mas ali não devo voltar mais. Pelo menos  à hora das refeições principais...

terça-feira, novembro 15, 2016

O Pato (com arroz)



Arroz de Pato sempre foi um dos meus pratos favoritos.

Deixei para trás com algum desdém as receitas onde o "marreco" aparece enfornado,  com ou sem laranja, lembrando o filme clássico de Luciano Salce, com a belíssima Monica Vitti (1975).

Hoje em Lisboa o Tio Emílio (que carinho de homem!) continua a apresentar um belo Arroz de Pato, lembrando aos clientes que na Tia Matilde se podem pedir as duas versões, desossado ou com o esqueleto. Para o Norte é famoso o "Rei dos Galos de Amarante" que costumava apresentar este prato às quintas feiras. Também ouvi boas novas da Casa do Arco (uma quinta) na Maia em relação a esta confecção. E, está claro, a Tia Alice em Fátima faz um Arroz de Pato muito bom.

O famoso Arroz de Pato à moda do Minho  leva enchidos de porco , normalmente orelha, barriga fumada e presunto. Tudo da melhor qualidade.

No restaurante (tasca boa) Maria de Perre, em Viana, faziam uma bela interpretação. Mas onde o comi melhor foi em casa particular de Braga. Morada não a dou. Quem tem amigos destes resguarda-os para o que der e vier...

Em casa faço muitas vezes, utilizando toucinho de porco preto para cozer o pato e refogar o arroz, e pondo por cima paio da mesma proveniência. Aqui vai uma receita que foi muitas vezes testada e que sempre resultou bem. Claro que quando a minha sogra criava os patos na quinta,  a milho e couves,  o caso melhorava muito...

Cozemos o Pato com o toucinho numa boa panela que tem água e sal e uns grãos de pimenta preta. Quando o Pato  estiver cozido, retiramos, coamos e reservamos o caldo. Deixamos arrefecer o Pato e o toucinho e cortamos aos bocados. Para quem, como eu, gostar de manter os ossos, devemos cortar o Pato em bocados grandes.

Fazemos depois uma puxadinha ligeira com cebola fininha, alho migado,  azeite e, os bocados de toucinho. Quando a cebola estiver a ficar transparente fritamos ali dentro o arroz por 2 minutos. Depois juntamos o caldo de cozer o pato (normalmente o dobro de caldo) e quando levantar fervura vai ao forno. Quando estiver quase seco, metemos o pato aos bocados no arroz e e pomos o paio às rodelas por cima a enfeitar. Volta depois  ao forno uns minutos para tostar.


Este prato requer um tinto de categoria. Já se sabe que com alguma adstringência, para cortar a gordura do anatídeo. Um Bairrada de Baga, ou então uma bela surpresa do Douro: Passagem Reserva Tinto de 2013. Não chega a 13€ e é de cair para o lado.

segunda-feira, novembro 14, 2016

O Susto e a Superstição



Dizem as enciclopédias que o "susto" é uma reacção normal e saudável do corpo humano face a ameaças reais ou imaginadas. Exemplo: ir na estrada distraído a conduzir e ser surpreendido por uma travagem repentina do carro na nossa frente.

Enquanto que "superstição" é a crença em relações "causa-efeito" que não se podem provar cientificamente. Exemplo (estive à procura de um engraçado): "criança que brinca com o fogo faz  xi-xi na cama".

Quando é que o "susto" se encontra com a "superstição"?  Há várias formas de isso acontecer. Recordo-me que há quem julgue ser certo que pregando um grande susto a alguém afligido por soluços, estes parariam... E a história de Santa Bárbara e dos Raios e Trovões também é exemplar, sobretudo para quem se assusta com essas manifestações da natureza.

Eu respeito as superstições, depois de habituado a dezenas  anos de aldeia na serra. Não digo que acredito nelas, mas respeito as pessoas que vivem essas crendices. E quanto a sustos, também já tive a minha parte deles.

Numa noite fria, pelo S. Martinho,  vinha da igreja para casa dos meus sogros e reparámos que o velho Tio Santidade (como de costume já a ver a dobrar) estava encostado à parede da sociedade recreativa, tão branco como a dita parede.

Disse-nos que tinha passado pelo cemitério, com a aflição dos muitos copos teve de se encostar ao muro para verter águas e ouviu barulhos medonhos que vinham lá de dentro. Desatou a fugir ainda com o serviço incompleto, pelo que molhou as calças todas. E tal fora o susto que ainda demorou a fechar a "carcela" com os tremores das mãos.

Pagou-se-lhe um copo ( ou três...) para o ajudar a esquecer a má experiência e demos connosco já em casa, perto do lume, a contar histórias de almas penadas até nos irmos deitar. Foi uma  noite interessante, de que não me recordo completamente por razões que todos imaginam. Era novo, o frio apertava, à lareira é que se estava bem com um cálice na mão (sempre cheio).

E o meu sogro contava histórias de apostas e de cemitérios, e de rapazes que iam bater com uma pedra nas grades do portão do campo santo, para "despertarem fantasmas".

As histórias eram todas isso mesmo: "estórias para assustar meninos".  Mas uma coisa era certa: a GNR tinha sido chamada há uns anos atrás, quando apareceram no cemitério campas muito antigas abertas e ossadas espalhadas, sem as caveiras.

Hoje diríamos que se tratava de malta nova metida em ritos satânicos e que lá tinha ido ao "supermercado dos ossos" aviar-se de caveiras. Mas naquela altura, 40 ou 50 anos lá para trás?
Nada se descobriu, mas  à boca pequena falava-se de bruxarias.

Ainda hoje não sei (nem isso interessa) se o Tio Santidade tinha de facto ouvido alguma coisa naquela noite, ou se a história fora pretexto para enfiar mais uns copos à borla...Desconfio mais da última versão.

Se fosse vivo, ao saber da eleição do Sr. Trump lá teria molhado as calças outra vez. Desta vez com razão.

quarta-feira, novembro 09, 2016

A Vitória do Muro



Depois de andanças várias espalhando o evangelho filatélico por essas terras e falando às criancinhas, regresso a casa para ser surpreendido com a vitória de Donald Trump nas eleições Norte-Americanas , onde - aliás -  o partido republicano faz a tripla: Presidência, Senado e Câmara dos Representantes.

Uma hecatombe não prevista e que os analistas vão levar algum tempo a explicar. Mais uma vez as sondagens falharam. E logo no país que inventou a ciência da demografia política.

O peso mexicano não pára de descer face ao dólar. Será o "muro" já a espreitar no horizonte dos estados fronteiriços? Sendo o mundo aquilo que é parece-me que mesmo para construir o tal "muro" hão-de os "senhores de engenho" recorrer aos escurinhos do sul, porque na maioria dos casos vergar a espinha será abaixo da condição superior inerente à pele mais clara.

Temos assim um Presidente apoiado por todos os radicais da supremacia branca que existem na América do Norte, incluindo (pasme-se) o Partido Nazi Americano. De tal forma que Marine Le Pen já o congratulou, imaginando nós que ao fazê-lo teria a boca salivando em expectativa ao que por aí virá nas eleições francesas.

As leituras que vão tentar branquear o acontecimento serão muitas e não discuto que muito sábias. Mas uma coisa é certa: ganhou o medo.

A política a seguir  - se tomarmos em conta os discursos de campanha - vai passar por cerrar as fronteiras, assegurar a presença cada vez maior das medidas securitárias, controlar quem chega e os que lá estão, e vigiar atentamente as comunidades "suspeitas".
Sem falar na subida das taxas de juro que foi abundantemente propagandeada e que trará inevitáveis amargos de boca à Europa.

Uma coisa me dá algum conforto: todos os políticos prometem aquilo que não podem cumprir...Uma coisa são as campanhas, outra será a prática da presidência. Reparem que  Obama nunca conseguiu encerrar Guantanamo durante 8 anos de presidência...

Pôrra! Porque é que eu falei agora nisto? Ainda dou ideias estranhas à trupe do Sr. Trump.

Notas finais: 

a) Pensando bem, e se eu fosse mexicano, a construção do muro nem é assim algo tão mau para o México...É que um muro impede os mexicanos de entrar, mas também impede os americanos de sair.

b) E o Vladimir Putin? Como se deve estar a rir sozinho... Já deve ter aberto a melhor garrafa de vodka que existir no Kremlin. Que grande farra!

quarta-feira, novembro 02, 2016

Noites antigas



A noite das Bruxas deste ano foi passada no sofá de casa, a ver o Netflix e a beber um copito.

 Entreti-me com as duas épocas da série "Marco Polo" (original Netflix) a qual prova que também em televisão é possível ter acesso a conteúdos para adultos de qualidade. Não tão boa como "Game of Thrones" (também era o que faltava) mas muito agradável.

Obrigações familiares e  uma inclinação mais natural para o sossego levaram a este triste final caseiro.

Nem sempre foi assim. Na época em que o Blues Café (nas Docas) estava no seu age  - e em que nem sequer se falava de Halloween em Portugal -  era costume esta minha noite ser de farra maior (não confundir com "faina maior").

Tínhamos de ir ao Blues uns dias antes, reservar uma mesa para o jantar. A procura era muita, o que valia é que nós éramos clientes de "garrafa" e por isso preferidos quando tocava a fazer o rateio das mesas.

A  decoração completa metia abóboras, vassouras, espantalhos e o clássico "palhaço maléfico" (do excelente "It" de Stephen King). As meninas e meninos dos bares estavam vestidos a preceito, a música , que era normalmente baseada em BB King y sus muchachos, nessa noite recebia uns toques de magia. Havia concursos de máscaras e artistas ao vivo.

Estávamos em 1996, o rei dos blues tinha estado no Coliseu e passara pelo Blues Café.

Na SIC tinha começado a "Grande Reportagem" e o "Contra Informação".

O meu carro  era um dos melhores que já conduzi: um Toyota Carina E. Nunca avariava!

CMTV não existia. "Troikas" eram coisas que se liam nos livros do Pasternak e do Pushkin. A moeda "Euro" já se adivinhava à distância, mas ainda não tilintava nos bolsos de ninguém.

Portugal  estava bem. Dizia o circunspecto Banco de Portugal sobre o ano em causa:
A evolução da economia portuguesa, em 1996, foi marcada pela continuação do processo de desinflação, o aumento do crescimento económico — impulsionado pela aceleração do investimento — a estabilização da taxa de desemprego, e a redução do desequilíbrio orçamental.

No recibo que guardei dessa Noite das Bruxas de 1996 (uma quinta feira)  no Blues Café estava inscrito o valor: 6 jantares - 15 000$00.

E recordo-me , melhor dizendo, lendo do papel, que isto da minha memória parece um cartão perfurado dos primeiros computadores,  que tivemos direito a gin tónico, entrada, prato principal, sobremesa e 4 garrafas de vinho, duas Alvarinho e duas tinto - Aliança Garrafeira de 1992.

A seguir à sobremesa veio a garrafa de Jack Daniels para a mesa, a qual se deve ter bebido toda, porque lá estava mais um "recibo" a testemunhar o gasto: garrafa de bourbon - 8000$00.

Na prática saiu a noite por 23 continhos, para seis pessoas. Entrámos às 22h e saímos às 6h da manhã seguinte.

Na época almoçava bem no velho Funil por um conto e duzentos, com tudo a que tinha direito - queijo fresco, alta posta de garoupa cozida, Quinta de Camarate Branco Seco, café e whisky. Por isso consideraria "cara" aquela despesa da noite das bruxas.

Hoje 23000$00 seriam 115 euros... O preço de um almoço para duas pessoas  em casa de categoria semelhante, desde que tenham cuidado com o que bebem.

O tempo não volta para trás, nem eu o desejaria. Mas é engraçado "pescar" estas reminiscências de há 20 anos atrás.

O Blues-Café das Docas de Alcântara está encerrado. Li algures que no local do venerável Hot Club, na Praça da Alegria,  está agora aberto um "Fontória Blues, Café & Dinner".

Qualquer dia passo por lá.

Mas já não pagarei 115€ por 6 jantares completos  e uma garrafa de Jack Daniels... Acho eu.

terça-feira, outubro 25, 2016

Comida de conforto



Um destes dias estava de candeias às avessas com a vida e precisava muito de conforto.

O conforto que posso obter nesta altura do campeonato tem mais a ver com comes e bebes do que com outra coisa qualquer (suspiro).  Daí ter decidido almoçar de garfo e faca, sozinho, num local onde me conhecessem mais ou menos, servissem bem e (sobretudo) não me chateassem.

Mas também onde não me conhecessem demasiado bem, porque a familiaridade amiga nestas alturas em que um gajo está mais para o cinza escuro do que para o branco pode ser intrusiva e até contraproducente.

Tive dificuldade em escolher o local, porque das duas uma :  ou me conhecem bem ou não me conhecem.  Mas acabei por decidir num poiso. Cheguei, sentei-me e pedi uma das sugestões do dia:  Língua de vitela estufada com puré de batata.

Era um prato emblemático do velho Funil (não confundir com o atual!!), recordando-me o meu trabalho na Casal Ribeiro e belos almoços num mundo mais leve e livre de tantos sobressaltos.

A acompanhar um tinto do Dão muito bom: o Quinta de Saes 2011 Estágio Prolongado. Não tão superlativo como o Pellada do mesmo ano, mas muito digno de registo.

Estava tudo bem encaminhado para a minha necessária catarse. Mas esta falhou redondamente por causa do serviço.

O funcionário da sala percebeu que o Cliente (moi) era "dos de gastar".  Pendurou-se à minha mesa (também por falta de trabalho) e nunca mais de lá saiu.
 - "Está a gostar da linguazinha?"
 - "E que tal lhe parece o vinhinho?"
 - " Ainda tem mais lá dentro no tacho!
 - "Acha que devo abrir mais uma garrafinha?"
 - "As nossas sobremesas são todas feitas cá em casa".
 - "Pela mulher do patrão!"

E por aí fora, rematando nos intervalos com o futebol (tentado saber qual era o meu clube para não se esticar ao comprido), com a política (tentando saber para que lado é que eu jogava) e etc, etc...

Pôrra que foi cansativo. Gostei da comida, adorei o vinho. Mas ...tenho de pensar bem se lá volto a entrar...

Mal por mal, quando estiver assim  a precisar de conforto em local onde não me conheçam e amem, vou directo ao Hard Rock Café.

A comida(?) pode não prestar, mas deixam-me numa paz absoluta apenas sobressaltada com os acordes do heavy rock.

Antes isso que ser melgado daquela forma atroz..Pobre Língua de Vaca! Pobre Quinta de Saes!

Mal empregados!

Comida de conforto



Um destes dias estava de candeias às avessas com a vida e precisava muito de conforto.

O conforto que posso obter nesta altura do campeonato tem mais a ver com comes e bebes do que com outra coisa qualquer.  Daí ter decidido almoçar de garfo e faca, sozinho, num local onde me conhecessem, servissem bem e (sobretudo) não me chateassem.

Mas também onde não me conhecessem demasiado bem, porque a familiaridade amiga nestas alturas em que um gajo está mais para o cinza escuro do que para o branco pode ser intrusiva e até contraproducente.

Tive dificuldade em escolher o poiso, porque das duas uma :  ou me conhecem bem ou não me conhecem.  Mas acabei por decidir num poiso. Cheguei, sentei-me e pedi uma das sugestões do dia:  Língua de vitela estufada com puré de batata.

Era um prato emblemático do velho Funil (não confundir com o atual!!), recordando-me o meu trabalho na Casal Ribeiro e almoços num mundo mais leve e livre de tantos sobressaltos.

A acompanhar um tinto do Dão muito bom: o Quinta de Saes 2011 Estágio Prolongado. Não tão superlativo como o Pellada do mesmo ano, mas muito digno de registo.

Estava tudo bem encaminhado para a minha necessária catarse. Mas esta falhou redondamente por causa do serviço.

O funcionário da sala percebeu que o Cliente (moi) era "dos de gastar".  Pendurou-se à minha mesa (também por falta de trabalho) e nunca mais de lá saiu.
 - "Está a gostar da linguazinha?"
 - "E que tal lhe parece o vinhinho?"
 - " Ainda tem mais lá dentro no tacho!
 - "Acha que devo abrir mais uma garrafinha?"
 - "As nossas sobremesas são todas feitas cá em casa".
 - "Pela mulher do patrão!"

E por aí fora, rematando nos intervalos com o futebol (tentado saber qual era o meu clube para não se esticar ao comprido), com a política (tentando saber para que lado é que eu jogava) e etc, etc...

Pôrra que foi cansativo. Gostei da comida, adorei o vinho. Mas ...tenho de pensar bem se lá volto a entrar...

Mal por mal, quando estiver assim  a precisar de conforto em local onde não me conheçam e amem, vou directo ao Hard Rock Café.

A comida(?) pode não prestar, mas deixam-me numa paz absoluta apenas sobressaltada com os acordes do heavy rock.

Antes isso que ser melgado daquela forma atroz..Pobre Língua de Vaca! Pobre Quinta de Saes!

Mal empregados!

segunda-feira, outubro 24, 2016

Os lapsos em público



Todos conhecemos destes lapsos em directo, na radio ou na TV, que levam os autores a corar de vergonha quando se apercebem do que fizeram.

Recordo alguns que testemunhei e que acho mais engraçados:

 - Na RR um locutor especializado em temas religiosos chamou ao Patriarca de Moscovo e Metropolita de todas as Rússias, o "Troglodita de todas as Rússias".

- Mário Centeno, o crescimento e o déficit? São mais que conhecidas as vezes em que se enganou nos números em público. E sem ter a destreza circense de Mário Soares ("- Oh Homem são milhões em vez de milhares? O que é que tem?Multiplique por mil que dá tudo certo! ").

- Os "pauzinhos" que o Ministro da Economia de Sócrates Manuel Pinho pôs na AR na direcção de Bernardino Soares.

- Cavaco Silva em directo na TV: "Não faço nem  façarei!"

- Das milhares de "bojardas" de Jorge Jesus escolho esta: "Isso dos estrangeiros não é um problema. Nós já estamos a tratar do processo de neutralização dos jogadores."

- Do grande  Gabriel Alves trago duas:
 -  «O árbitro foi atingido por um objecto atirado por um telespectador"
 - Num estádio lisboeta, parte do público canta "Oh Pinto da Costa, vai pró cara...!. Comenta Gabriel Alves:  «O público, entusiasmado, a apoiar as duas equipas!»

Mas a última que ouvi na TSF foi num programa onde se entrevistam proprietários de restaurantes e tasquinhas, sempre à procura desse "Portugal desconhecido" à mesa ,  comeres e beberes tradicionais.

A senhora falava do seu restaurante, situado na Lousã.

"- E temos também sempre peixe fresco do dia, que vou buscar aos melhores fornecedores."
 - "Então e que pratos de peixe costuma apresentar aqui?
 - "Polvo à lagareiro e bacalhau assado!".

Toma lá que já almoçaste.


quinta-feira, outubro 20, 2016

Dia do Exército em Elvas

As tradicionais comemorações do Dia do Exército são este ano na Cidade de Elvas, nas magníficas instalações do Museu Militar.

Para quem não conheça ainda, o Museu Militar de Elvas é um dos mais importantes da Europa na sua especialidade. Podem ler aqui sff:

" ...um dos maiores museus do País, onde o visitante pode ver, para além da monumentalidade das fortificações, dos Quartéis do Casarão, do claustro do Convento de São Domingos e da Fonte de São José, todo um conjunto de elementos de interesse: História do Serviço de Saúde do Exército; Hipomóveis e Arreios Militares no Exército; Centro de Interpretação do Património de Elvas; Viaturas do Exército.
Este núcleo museológico tem parte substancial da muralha e fortificações visitáveis, com painéis explicativos, e nas instalações do antigo quartel tem neste momento aberto ao público as seguintes temáticas museológicas: História do Serviço de Saúde do Exército, salas dedicadas à ortopedia, oftalmologia e cirurgia, sala de veterinária, sala de farmácia; Arreios Militares do Exército, com salas de dedicadas ao cavalo, arreios de infantaria, arreios de cavalaria, arreios de artilharia, sala de Intendência; Hipomóveis, com salas dedicadas ao armamento rebocado por animais, na sua quase totalidade artilharia.
Todas estas salas são antigas dependências das unidades militares que passaram por Elvas – a última foi o Regimento de Infantaria n.º 8 – adaptadas agora a esta finalidade, muitas delas em edifícios também eles históricos e que agora se procurou, dentro do possível, recuperar na sua traça original."

O vosso Bloger lá estará, para fazer a cerimónia do 1ºdia de entrada em circulação da emissão filatélica que dedicámos aos "Brasões do Exército Português".

A "Heráldica Militar" tem sido há muitos anos acarinhada pelo nosso Exército. E trabalham  (ou trabalharam) no Arquivo Histórico Militar  alguns dos maiores especialistas neste assunto.

Recordo os mestres iluministas António Galvão e José Colaço. E os Coronéis Pedroso da Silva e Guerreiro Vicente, eminentes estudiosos do tema.

terça-feira, outubro 18, 2016

A Importância das pessoas



Tive o privilégio de ser convidado para Confrade de Honra ( embora a honra fosse minha) da Confraria dos Doces Conventuais de Tentúgal.

Até aqui tudo bem. O que não esperava foi a forma como esta Confraria aproveitou a notoriedade do famoso "pastel de Tentúgal" para fazer uma obra de altíssimo mérito relacionada com a recuperação e divulgação do rico património histórico e arquitéctónico da sua vila.

Para quem pensava - e aqui dou a mão à palmatória eu mesmo - que esta vida das confrarias gastronómicas era sobretudo feita de almoços, comes e bebes e discussões de sacristia, acho que levámos todos um "banho" de história, de civilização e de bem-fazer naquele sábado passado.

Visitámos demoradamente e extasiámo-nos com as igrejas magníficas e os seus altares em pedra de Ançã pintada, com o Convento das Madres do Carmo de Tentúgal (origem da afamada doçaria que se evoca com o nome da vila), com a milenar e  recém recuperada ( pela Confraria) Torre do Relógio,  e com a  Capela onde se suspeita que repousa o maior matemático português de todos os tempos, Pedro Nunes,  de quem evocámos filatelicamente há dias os 450 anos da sua obra fundamental "Petri Nonni Salaciensis Opera" .

Tivemos ainda direito a uma reinterpretação dramática dos acontecimentos de 1807 (Invasões Francesas) e da forma como afectou o convento e a vila. Tudo isto em récita dita "de amadores" mas que espelhava bem o amor que todos sentiam pela sua terra e sobretudo o cuidado em ir às fontes e investigar o passado, para iluminar o caminho do presente.

É devido um sentido "muito obrigado" às pessoas da Confraria e da amável Tentúgal, e um enorme abraço de gratidão à "alma mater" disto tudo, a Drº Olga Cavaleiro.

São as pessoas que normalmente fazem a diferença. E que diferença amigos...

"A diferença entre as pessoas que têm iniciativa e as que não têm é a diferença entre o dia e a noite"
Stephen Covey

E é bem verdade!

quinta-feira, outubro 13, 2016

Amanhã em Matosinhos, a "enlatar" selos...


 

Acompanharei amanhã a RTP para uma reportagem na histórica fábrica de conservas Ramirez, onde a nossa emissão "Indústria Conserveira" está a ser "enlatada"!

Saem estes selos (e as latas) em 31 Outubro.

Aqui vão uns detalhes sobre o acontecimento:

Graças às suas qualidades e potencialidades gastronómicas na criação e reinvenção de novos produtos e sabores, as conservas portuguesas gozam hoje de um inegável prestígio nacional e internacional. 

Desta forma, os CTT Correios de Portugal decidiram assinalar de uma forma original esta emissão de selos dedicada à Indústria Conserveira Nacional. A forma que encontraram para este destaque foi a inclusão de 50 000 séries destes selos dentro de latas de conserva especialmente serigrafadas e preparadas para o efeito, mas em tudo idênticas às que se utilizam para comercializar o atum, a sardinha, a cavala, as lulas, etc…

Trata-se da primeira vez que uma emissão de selos é apresentada ao público em latas de conserva.

Colaborou com os CTT nesta aventura a mais antiga fábrica de conservas em laboração no mundo, a firma “Conservas Ramirez”, fundada em 1853. Por feliz acaso no mesmo ano em que foi lançado o primeiro selo português: o célebre D. Maria II, posto a circular a 1 de Julho de 1853 nas versões de 5 réis e de 25 réis. 

A Ramirez assessorou os CTT na escolha da lata especial e na sua serigrafia, assim como irá proceder à inclusão dos selos nas latas e ao fecho das mesmas em autoclave, nas suas instalações fabris em Matosinhos, já amanhã,  dia 14 de Outubro.

Cada um dos seis selos desta emissão contém três imagens, uma à esquerda, uma central e uma à direita. O selo com o valor facial de 0,47€ mostra um Galeão a Vapor, um pormenor de cartaz publicitário da empresa Annuario do Brasil e um Biqueirão; o selo de 0,58€ mostra o “desenvasar” da sardinha, o pormenor de gravura do livro de ouro das conservas e uma sardinha; no selo de 0,65€ constam três imagens, nomeadamente o cais de descarga do peixe para a fábrica de conservas, uma ilustração de Fred Kradolfer e uma cavala; o selo de 0,75€ demonstra o enlatamento, um cartaz publicitário das conservas e atum; o selo de 0,80€ com a secção do “vazio”, um postal publicitário de Brandão Gomes e uma Lula; e por fim, o selo com o valor facial de 1,00€ que nos mostra a secção do “cheio”, um cartaz publicitário das conservas Boavista e uma enguia. 

Todos os selos têm uma tiragem de 125 000 exemplares cada. E destes, 50 000 serão apresentados ao público encerrados em latas de conserva.

O design dos selos esteve a cargo do Atelier Pendão & Prior / Fernando Pendão. Os selos têm um formato de 80 X 30,6 mm.

quarta-feira, outubro 12, 2016

Caixeiro-viajante



Com a preparação do Dia Mundial do Correio (que foi na segunda feira) e os lançamentos e apresentações dos nossos  livros que por aí vêm ("Jesuítas Construtores da Globalização" , amanhã no Museu da Ciência; "Vinhas Velhas" a 27 ) não tenho tido tempo para passar por aqui.

Resultou destas andanças alguma reflexão sobre a necessidade de tantas viagens e de tantos km percorridos para mostrar um carimbo, apresentar uma emissão de selos, falar sobre alguma obra de nossa edição.

Quando comecei esta vida, lá para os anos 80 do século passado, o mundo era mais simples e pacato. fazíamos 10 ou 12 (um exagero já!) emissões de selos por ano, e dois livritos.

Mesmo assim seria  raro algum destes selos ou livro ter associado um evento público de apresentação.

Recordo-me com saudade da emissão comemorativa da Independência de Portugal, seria em 91 ou 92 no Palácio da Independência, onde me coube pela primeira vez assumir a "cena dos carimbos" perante o Presidente da República Mário Soares e tendo "à ilharga" os dois marechais da República António de Spínola e Costa Gomes.

Passei a noite anterior a estudar o que deveria de dizer. Quando cheguei à sala (enorme!) verifiquei que tinham posto a mesa de honra a uma ponta e a mesa da obliteração com a caixa dos carimbos a meio da sala. Era pois necessário convidar as três individualidades para se levantarem e virem à mesa do meio. Coisa que eu não tinha preparado...

Enchi-me de coragem e disse em voz alta:
"- V. Exª Sr. Presidente da República, Vossas Exas Senhores Marechais, dignam-se acompanhar-me à mesa da obliteração?"

Depois virei-lhes as costas (lapso protocolar!) e comecei a andar.  No caminho - que seriam ainda uns 15 ou 20 metros,  mas que para mim pareceram kms -  só pensava:
- "Vêm atrás de mim ou não vêm? Se não vierem não paro na mesa, continuo a andar, saio pela porta e apanho o 1º táxi para a Casal Ribeiro..."

Mas vieram, carimbaram e mostraram interesse.

Depois disso o Dr. Mário Soares tornou-se perito na tarefa, costumava empurrar os Ministros e dizia:
-" Chegue-se para lá que disto percebo eu! Tenho prática!"

Hoje é como sabemos: quase 30 emissões por ano, 8 livros. Mais de 40 Carimbos. Muitos destes com cerimónias associadas, por esse país fora.

E tendo em linha de conta a necessidade de manter  viva a chama  de um produto que todos os dias perde utilização prática, resta-nos aumentar a notoriedade institucional para que se lembrem todos do que são selos e que estes servem (também) para franquear cartas e postais.

Por isso é a minha obrigação andar por esse mundo (lusitano) a disseminar este "evangelho".

O "Impetrante escriba e apontador da carimbação" morreria se não aproveitasse estes "caminhos" e estes "Km" para dar treino à cremalheira.  Daqui nasceu também o interesse que mantenho pela gastronomia e pela restauração.

Se a vida te dá limões faz limonada!  E é bem certo!